Quem são essas mulheres imigrantes?
Desde que eu iniciei o projeto da comunidade Her Voice para mulheres imigrantes, algumas reflexões me fizeram questionar quem são essas mulheres. A começar por mim...
Tania Lacerda
5/8/2024


Desde que eu iniciei o projeto da comunidade Her Voice para mulheres imigrantes, algumas reflexões me fizeram questionar quem são essas mulheres. A começar por mim, eu sou uma mulher imigrante e certamente partilho alguns sentimentos e experiências com tantas outras mulheres. Eu já vivi a sensação de pertencimento, de me identificar com aquela nova cultura, já comparei mentalmente as vantagens de estar aqui e não lá, já fiquei feliz por ter adquirido outros olhares para a mesma situação, pontos de vistas de quem não cresceu comigo dentro da mesma comunidade. Eu também já senti que não cabia nada ali naquele lugar, já comparei que lá em casa era mais rápido resolver as coisas, ou que ir à praia não é mais a mesma coisa. Portanto, eu sou a primeira mulher dessa comunidade que pretende falar para outras que por aqui passarem sobre essas nossas conquistas e inseguranças, sobre essa nossa coragem de se lançar ao novo.
Cheers, girls!
Muitas mulheres que tenho encontrado pelo caminho merecem pelo menos uma medalha de honra ao mérito por ser quem são, num título de bravura por não desistir, ou uma condecoração pela história que percorreram até aqui. Eu daria essa medalha, se pudesse. Faria uma galeria com as suas fotos, aliás, na minha mente eu consigo visualizar esta cena. Talvez você também tenha essa galeria de mulheres maravilhosas que lhe inspiram e lhe acolhem, e que sorte a nossa por isso.
O motivo da minha mudança do Brasil foi uma outra mulher, a minha filha, que resolveu estudar fora e ficou. Essa outra mulher também representa um tanto de mulheres estudantes, cheias de sonhos, querendo muito conhecer o novo mas também dispostas a compartilhar essa bagagem que carregam com tanto orgulho, com saudade e às vezes com medos novos e antigos.
Somos todas meio parecidas em alguma coisa, algumas com mais ou menos sorte, mais ou menos oportunidade. Não sei bem como é que se joga esse jogo para ter mais sorte, mas pela minha experiência estar preparada conta sempre mais. E para quem está de fora, pode até dizer que eu tive mais sorte profissionalmente na minha experiência como imigrante, mas isso simplesmente porque já era fluente em inglês e muitas portas se abriram para mim por conta desse pequeno detalhe.
Uma verdade desconfortável
Eu sempre conto duas experiências que tive em entrevistas de emprego. Na primeira, éramos cerca de 5 pessoas à espera na ante-sala de uma empresa em Lisboa. Abriu a porta o entrevistador, cumprimentou a todos e começou a falar inglês de repente. Apenas duas pessoas entenderam. Ele agradeceu aos demais e disse que para aquela vaga teria que ter um nível avançado em inglês. Quando eu entrei na sala eu sentia muita raiva daquilo tudo, nem era um emprego tão bom assim. É como se eu tivesse colaborado para constranger aquelas outras pessoas. O outro candidato era um jovem rapaz que viveu anos fora, era fluente. As pessoas que foram embora eram todas mulheres brasileiras. Na segunda experiência eu fui entrevistada por uma mulher super gentil, educada e, de cara, tive uma impressão maravilhosa da empresa. Pensei, quero trabalhar aqui. Até que ela fez um comentário com intenção de ser um elogio para o meu inglês, que eu falava muito bem e não é típico na comunidade brasileira imigrante. Um nó na garganta, foi o que eu senti na hora. Pior é que ainda sinto esse nó desconfortável até hoje, principalmente porque esse tipo de “elogio” repete-se com uma certa frequência e mais ainda por ser verdade.
Onde eu pertenço…
Eu posso dizer, então, que a comunidade Her Voice foi nascendo desses meus encontros com essa realidade tão cruel e injusta. Quando eu monto as aulas e seleciono o material, penso na dinâmica que vou levar para a aula, claro que eu tenho todo o conhecimento que vou acumulando por mais de 30 anos como professora de inglês, mas tenho bem latente na minha cabeça o que fazer para ser uma solução para essas mulheres.
A cada aula, a cada progresso de uma aluna eu sinto que é nesse lugar abstrato que está todo o meu pertencimento. Não é em Lisboa, nem em Londres ou em Nova Iorque, é aqui que eu quero estar para que todas as nossas vozes sejam ouvidas.
