Onde o Inglês já me levou…

Se tem uma coisa que eu gosto das minhas viagens são as histórias. Por vezes, são histórias engraçadas, de uma aventura, de estudo, e de perrengue também. Sobre a história de hoje, bem, eu vou deixar que você decida que tipo de história é essa.

Tania Lacerda

6/9/20264 min read

Nova Iorque, 2011

Se tem uma coisa que eu gosto das minhas viagens são as histórias. Por vezes, são histórias engraçadas, de uma aventura, de estudo, e de perrengue também. Sobre a história de hoje, bem, eu vou deixar que você decida que tipo de história é essa.

Uma viagem, um sonho, um quase medo

Eu tinha uma viagem programada para Nova Iorque em 2011, 10 anos depois dos ataques terroristas do 11 de setembro e um pouco antes de viajar começaram os rumores de um possível ataque no 4 de julho, dia em que se comemora a Independência dos Estados Unidos. Os rumores não cessaram, mas eu não perdi a vontade de ir assim mesmo.

Cheguei uns dias antes e no dia 4 acordei bem cedo e fui caminhar pelas ruas. Era feriado e estava tudo estranhamente calmo. Eu tinha um mapa nas mãos e decidi visitar a Catedral de Saint Patrick. Encontrei uma praça e fiquei encantada com uma escultura, tirava fotos, olhava o meu mapa e acho que o meu coração desejava muito ter um telemóvel/celular com GPS, mas eu não tinha nada disso em 2011. Eu estava perdida

Nova Iorque Sitiada

Devo acrescentar uma informação muito importante: a quantidade de agentes policiais nas ruas e carros de polícia era assustador. Isso fez-me lembrar dos tais rumores, mas tudo parecia tão calmo. Eis que se aproxima de mim um morador de rua e pede que eu compre algum dos seus artigos para o ajudar. Ele tinha coisas aleatórias: canetas para decorar unhas, giletes, isqueiros, entre outras coisas. Eu tentei despistá-lo, mas ele era bastante insistente. Um detalhe importante foi que tinha um grupo de policiais na esquina a me observar e eu fiquei até mais segura por isso. Por fim, comprei uma caneta e ele perguntou onde eu queria chegar com aquele mapa. Ele disse que andava o dia todo e que conhecia muito bem as ruas. Eu devo ter murmurado Saint Patrick Cathedral, ele ouviu e disse que eu estava indo na direção contrária, mas que para ter certeza poderíamos perguntar à policial na esquina. E lá fui eu e o morador de rua andando até a esquina falar com a senhora policial. Era uma mulher forte, loira, bem-humorada e disse que eu estava a umas 24 quadras da igreja, mas que eu não deveria ir de táxi porque o dia estava bonito e “nós” poderíamos fazer uma boa caminhada. Oh my God, onde que eu fui me meter? Por que ela sugeriu isso? O morador de rua olhou pra mim e disse “if you don’t mind…” (se você não se importa) Ai eu pensei, será que vai parecer preconceituoso não aceitar? E lá fui eu e o homeless pelas 24 quadras até a igreja.

Um novo amigo?

Conversamos sobre muitas coisas: como ele foi parar nas ruas depois da crise de 2008, como era a vida nos abrigos e que ele dormia nas estações de metrô. Ele também fazia perguntas ao longo do caminho: se eu estava lá sozinha, de onde era, se era a primeira vez nos EUA, tudo muito sutil. Não trocamos nomes. Ele tinha uma barba grande que escondia o rosto, pediu desculpas pela aparência e de ser visto ao meu lado, já que eu poderia sentir vergonha dele. Deu todas as dicas dos dias em que alguns museus, bibliotecas, e memoriais abriam gratuitamente. Achei o nível cultural dele muito bom e o inglês também.

Oremos

Chegamos à catedral, ele fez uma foto minha na frente da igreja e entramos. Sim, ele decidiu que seria uma boa ideia entrar comigo na igreja. Naquele momento eu só contava com Deus, Saint Patrick e o meu anjo da guarda. Na entrada tinha uma revista feita pelos seguranças: eles abriam as bolsas, faziam perguntas, passavam o detector de metais. Ele estava atrás de mim. A missa estava prestes a começar e eu achei que seria bem interessante assistir uma missa em inglês em Nova Iorque. Sentei bem a frente e o nosso homeless ficou muito tempo lá com os seguranças. Num dos momentos de levanta e senta na missa eu aproveitei para olhar para trás e, sim, ele ainda estava lá conversando e sendo revistado. Passei a missa inteira rezando para sair viva dali. Até que quase no final da missa ele veio e perguntou se poderia sentar no banco ao meu lado. Tinha mais seguranças que pessoas na igreja. No final da missa, as pessoas começaram a fazer fotos e eu fui para o lado oposto dele, mas imagina que ele encontrou a oração de Saint Patrick projetada em uma das esculturas e quis me levar até lá. Era mesmo lindo, e ao sair da igreja eu passei para comprar algumas lembrancinhas. Dei um santinho com a oração a ele, já que havia sobrevivido, era justo. Ele agradeceu, disse que nunca tinha entrado naquela igreja antes e que passava por lá todos os dias. Disse que ia tentar não perder o “santinho”. De repente começou uma chuva torrencial e ele saiu pela porta lateral da igreja e parou um táxi. Eu entrei e nunca mais ouvi falar do morador de rua americano.

Foi drama ou comédia?

Foi uma experiência um tanto quanto inusitada e eu achei que tinha acabado ali. Se eu não tivesse um amigo gringo que fez faculdade em uma universidade em Nova Iorque e que ao lhe contar a história passei a ver tudo de um outro jeito. Na verdade, o homeless era um espião. Esse meu amigo explicou que é muito comum esse tipo de ação e que ele fez muito isso durante o tempo que estudou lá. Ele era convocado para ir a prédios públicos e até chegava a ser empregado de limpeza para identificar possíveis ameaças. Isso explicava o nível cultural do homeless, o porquê da policial sugerir que ele me acompanhasse a pé, as perguntas que ela ia fazendo ao longo do caminho e o tempo que passou falando com os seguranças na igreja. No final das contas, eu era a possível ameaça (risos), qualquer informação que eu desse poderia levantar alguma suspeita e eu estava possivelmente sendo investigada. Ele deve ter pensado que perdeu o tempo dele totalmente, mas ainda assim eu fico grata pela possibilidade de ter vivido isso. Se não falasse inglês, eu nunca teria conhecido um homeless/spy em Nova Iorque.