Eu nunca fui uma aluna brilhante

Há pessoas com um talento natural para falar outros idiomas e eu conheço algumas, mas não sou uma delas. Eu comecei a estudar inglês aos 7 anos em uma das escolas de inglês no Brasil e era uma criança extremamente tímida. Como eu passei a gostar de inglês e viver disso é algo que me enche de orgulho e eu espero que te sirva de inspiração hoje.

Tania Lacerda

7/1/20264 min read

Há pessoas com um talento natural para falar outros idiomas e eu conheço algumas, mas não sou uma delas. Eu comecei a estudar inglês aos 7 anos em uma das escolas de inglês no Brasil e era uma criança extremamente tímida. Como eu passei a gostar de inglês e viver disso é algo que me enche de orgulho e eu espero que te sirva de inspiração hoje

Silenciosa

Eu não era uma aluna excelente, já disse, mas também não era medíocre. Uso essa palavra tão feia para descrever uma pessoa que finge que faz alguma coisa e espera ter algum resultado. Não, eu não era assim. Eu não faltava às aulas, fazia as tarefas, e queria mesmo ter bons resultados. Acontece que durante as aulas eu mal falava e assim ficava um pouco difícil de ser avaliada. Em meu favor, devo dizer que eu passei a ser a mais nova nas turmas, sempre. Isso porque os colegas que começaram comigo desistiram no primeiro ano, e portanto era eu, uma criança de 9, 10, 11 anos a conviver com adultos. Parecia que existia um consenso em me deixar ali quietinha, sem perguntar muita coisa, eu apenas ia passando de nível e provavelmente todos imaginavam que eu ia desistir também.

Super Vicky

Só que eu sempre fui muito observadora, tinha uma memória melhor que o restante da turma, não questionava as regras porque eu mal sabia muita coisa do português e isso tudo deve ter contado ao meu favor. Eu sempre pensava que os meus colegas de turma e os professores não deviam fazer ideia de que eu compreendia alguma coisa, e mesmo quando eu sabia a resposta, nunca jamais iria levantar a mão para responder. Até que um dia eu tive um professor substituto francês que ficou com a turma até o final do ano. Como ele ignorava esse contexto, ele passou a agir diferente comigo. Lembro-me bem do dia em que tivemos um exercício de listening bem complicado. Eu tinha 12 anos e já era nível avançado em uma turma com mais 4 pessoas adultas. Eu sabia o que dizia no áudio e ele decidiu me perguntar. Quando eu respondi corretamente ele tentou investigar se eu tinha visto o texto, fez brincadeiras, disse que também era estrangeiro e não entendia o que diziam. O professor passou a fazer isso em todas as aulas e declarou publicamente que eu tinha um listening invejável. Ganhei o apelido de Super Vicky, que era uma personagem de um seriado na época com poderes especiais. Eu não me esqueço desse dia porque foi um ponto de virada na minha experiência como aluna e, posteriormente, na minha prática como professora de inglês.

Alguns anos depois eu concluí o curso e comecei a estudar metodologia para dar aulas para crianças antes mesmo de começar a faculdade. Quando comecei a dar aulas, eu nunca deixava os alunos tímidos de lado. Eu tinha sempre um jeito de chegar até eles e às vezes até me encontrava em alguns - pela timidez, curiosidade ou pela capacidade de observação.

Fórmula mágica

Eu procuro sempre ensinar as minhas alunas a observar o tanto de material em inglês à nossa volta, mas no fundo mesmo esse é um processo que precisa acontecer dentro de cada um. A fórmula mágica é só um hábito que você deve adquirir já, pois vai te ajudar a desenvolver as suas habilidades em inglês. Então, o que será que tinha na cabecinha de uma criança de 12 anos sobre as suas aulas de inglês?

Os Meus Passos

  • Observe o som da palavra e não tente ler como fazemos em português, só tente repetir o que você escuta. Repita o som. Todo mundo consegue imitar sons. Para mim, a palavra escrita é só um desenho.

  • As palavras não andam sozinhas. Observe o que vai junto e muitas vezes dá para entender a frase só com isso.

  • O contexto ajuda muito. Se é uma situação triste, alegre, ou uma pergunta. E ainda muito importante: comece pelo que você já sabe. Muita gente fica presa nas palavras que não sabem e isso não adianta nada.

  • Tem palavrinhas que nem são faladas, mas a gente sabe que estão ali. Eu gosto de pensar nesses sons escondidos, que não querem muito aparecer, mas que sem eles a frase fica toda maluca.

  • Leia as embalagens das coisas. Pegue tudo que encontrar pela frente. Eu gosto de ler em português e depois em inglês e aí já sei o que significa.

E agora de volta ao presente, estou aqui para te lembrar que aquela criança tímida estudou inglês em um mundo sem internet. Os dicionários eram antigos, pesados, nem ajudavam muito. Ou seja, os recursos que temos hoje dão acesso a muito mais pessoas aprenderem mais rápido e com mais prazer.

Eu só não trocaria essas dicas valiosas da minha criança interior que continua aqui observando, imitando sons, e procurando as palavras tímidas. Como professora, eu ainda sigo procurando as alunas escondidas que só precisam de uma chance para despertar os seus superpoderes e soltarem a voz delas em inglês.